Arquivo mensal: junho 2013

No calor das manifestações de junho

(Retomando o blog aproveito para postar um texto que fiz a partir da manifestação do dia 20/06/2013)

“Vivemos uma época estranha e toda época o é”

(frase do meu terapeuta Pedro Honório)

Drica Fernandes

Já nas barcas Niterói-Rio, em direção a passeata, me associo ao grupo que bradava “Ô CCR [empresa que administra a Barcas] pode esperar, a sua hora vai chegar”. Embarcamos repetindo esse mote com o riso cúmplice da funcionária-marinheira com batom. Aquilo parecia um bom sinal. Todavia, ao chegar na 1º de Março, um primeiro elemento estranho. Um adulto de 40 anos portava o cartaz escrito em hidrocor: “Ronaldo, noitada se faz com mulher e não com travesti”. Parei, respirei e reparei atentamente no moço que lembrava estranhamente o pessoal de Woodstock, ou seja, a coisa já se delineava nesse sentido: um caldeirão brasileiro e nauseabundo.

Seguindo pela Buenos Aires para encontrar as hordas afins esbarramos com duas amigas gays e assim formamos espontaneamente um pequeno coletivo gay. De repente, dando uma panorâmica já na Central, passa um pequeno grupo de garotos clamando: “Dilma Sapatão”. Huum, tudo estranho, muito estranho. Mas vamos continuar. Um amigo tenta nos achar via torpedo(s) e combinamos na estátua de Zumbi. Péssima ideia. Na estátua, novamente são os “efusivos brasileiros” que se instalam para tirar fotos e tentar subir na cabeça do herói negro, sem sucesso. Eis que chega um garoto pobre, que não é preciso dizer a cor, roupas trapos, personagem fácil da cidade, magro e rápido. Eis que fazia 20 anos da Chacina da Candelária e o garoto chega na cabeça de Zumbi. Os agora “efusivos brasileiros” gritam tal como policiais: “Sai daí”, “Ú, Ú, Ú”, “Sem vandalismo”. Um desses “efusivos brasileiros” joga um latão de cerveja em direção a estátua que passa raspando a cabeça de nossa amiga. Estranho, tudo estranho. Outro desses “efusivos brasileiros” (com o rosto pintado de amarelo e branco) resolve jogar outra coisa em direção ao garoto negro, pobre, hábil e rápido, mas “tia Drica” o repreende e funcionou. O rapazinho retorna a seu grupo para seguir a procissão que toma as quatro pistas da avenida.

Recomeçamos a andar em direção a prefeitura, tudo estranho, muito estranho. Mais adiante, no prédio da Universidade Estácio o clima pesa. Um homem que tem o tipo de P2 [policial infiltrado] vem com conversinha: “Acho que todos deviam votar nulo nas próximas eleições”. Continuando o clima estranho, muito estranho, as grades do prédio da Estácio dão um ar de abrigo, havia uma rua ao lado, podíamos evadir por ali caso o bicho pegasse. O helicóptero da Civil passou desfilando bastante baixo na Vargas, o pessoal vaia. Boa. Chegam três garotos “independentes” e dizem que a PM botou a cavalaria na prefeitura e mandou os animais para cima dos manifestantes. Bombas e bombas de gás lacrimogêneo e pimenta. Horda retornando.

No caminho, cartazes contra Feliciano, pequena esperança: “Cura ignorância” na forma de um vidro de xarope nas cores do arco-íris. “Feliciano dá o seu dízimo para os professores”, “Feliciano você não vale R$ 0,20”. Boa. Na Central batucada com punks e MST. Boa! Já na altura da Av. Passos o drama, a polícia subia pela Candelária. Ou seja, a polícia vinha pelo início e pelo final da Presidente Vargas. Gritos melhores escutei: “Não vai ter Copa”, “Cabral é ditador” ou “Fora Cabral” (bradados de modo recorrente em todos as manifestações). O “Sem vandalismo” dos “efusivos Brasileiros” foram substituídos pelo “Sem moralismo” e pelo “Quebra devagar”. Este último já no clima que tomou a Vargas e que foi intensificado com a chegada do Caveirão, sim, é isso, um Caveirão na altura da Uruguaiana. Aí a coisa já tinha virado.

Quebra-quebra principalmente das lojas de celular, Bobs e a vidraça blindada do novo prédio do Banco do Brasil. Mas os garotos tanto eram magros, quanto fortes, com seus panos que tapavam a cabeça. Um poste de ferro com câmeras foi exemplarmente derrubado, e isso foi mesmo incrível. E escutei: “Não é vandalismo, é indignação”. Com a chegada do blindado saímos correndo, cada qual foi para uma quebrada da Vargas. Corremos pela Rio Branco seguindo a maioria. Muito gás de pimenta e a polícia vindo com tudo, mas deve ter achado mais interessante perseguir outros grupos.

Os garotos “independentes” foram quebrando novamente banco$ pela avenida marcante da cidade, até chegarem a um MacDonalds, e chamou a atenção um “independente” que pegou uma pá de construção e partiu com tudo para as vidraças de uma agência da Caixa Econômica. Um “efusivo brasileiro” tentou conter um dos  “independentes” que jogava uma pedra na vidraça do MacRonalds, mas sem sucesso. Outros agora repreenderam o “efusivo brasileiro”. O quebra-quebra não cansava.

O Choque entrou na Rio Branco também. “Independentes” seguiram para a Marinha, mas logo voltaram varados. Rodeamos a Mauá e nos abrigamos no Bar Flórida, ocupado com seus marinheiros mercantes mais preocupados em derrubar o chopp, do que com qualquer outra coisa. Putas e clientela parecem, porém, não totalmente alheios ao clima, mas tentam manter a pose. Eis que o bar começa a fechar suas portas de forma súbita. O local é bastante conhecido do pessoal da polícia e é provável que algum policial amigo tenha pedido para o dono cerrar suas portas. O bar é esvaziado. Finalmente encontramos nosso amigo, que conta o que passou nas barcas. Os policiais retendo as pessoas num espaço. Metralhadoras em punho. E depois, alguns desses manifestantes, batendo palma para os PMs que haviam “liberado” o local. “Triste” – ele diz. Estranho, tudo estranho. Para chegar na Mauá e nos encontrar ele teve que passar pela Vargas e Rio Branco e levantar os braços diante dos policiais que controlavam a via. Conseguimos pegar o 100 para Niterói. Algumas poucas cervejas para replicar o clima de desolação.

Em casa, o Movimento Passe Livre de SP já havia postado que não participaria das próximas manifestações. Outras lutas, fóruns e encontros urgem. Retomar o foco.